O maldito jogo terminou com a vitória por três gols a zero do Foot Ball sobre o Nacional, para comemorar mais uma derrota Roger G. decidiu abrir uma garrafa de vodka, uma vez que o vinho acabara, decidiu que era hora de algo mais forte, a cabeça a essas alturas já estava em ponto de ebulição, seu hálito era quase volátil, devido a quantidade de álcool insana que ele havia ingerido, sentiu que suas pálpebras começavam a ficar pesadas, sacudiu a cabeça, tratou de se levantar, cambaleou, apoiou-se no braço do sofá, sentia-se nauseado, o estômago era um embrulho, as pernas pareciam feitas de gelatina, a visão embaralhada, era hora de reagir pensou ele, sim a auto piedade já o afogava, e daí que fosse quarta-feira? Olhou para si, estava um trapo, atirado as moscas, tomou a direção do banheiro, o pequeno apartamento que alugava cheirava estranho, fazia seis dias que ele não o arejava, olhou para fora com os olhos pequenos e desacostumados com a claridade, já estava escuro, não saberia precisar a hora, mas já era noite, coisa que no verão deveria corresponder a algo perto das nove horas da noite, uma boa hora pensou G. tomo um banho, me arrumo um pouco converso com alguns amigos e sigo a noite tomando refrigerante para começar a me recuperar! era um pensamento simplista, mas não deveria ser assim que as coisas aconteceriam, Roger G. sabia que não seria fácil, mas o primeiro passo estava dado, uma tentativa de reabilitação, chegou ao chuveiro e despegou-se de sua única peça de roupa até então, a cueca amarelada impregnada de suor e de respingos de bebida foi atirada em um canto, provavelmente ficaria ali até que apodrecesse, já que uma empregada era um artigo de luxo que G. no momento não poderia pagar. Ainda trôpego apoiou-se no box do banheiro, tratou de correr a porta por cerca de quarenta segundos, até conseguir clarear a mente e ver que tentava puxar a parte fixa, achando que era a porta de correr, a bebida o fizera perder a percepção e a noção da certeza acerca dos objetos, podia jurar que haviam coisas no banheiro que mudaram de lugar, e outras que ele jamais havia visto, sentou-se no vaso sanitário, a cabeça baixa, colocou as mãos na cara e esfregou, voltou a olhar tudo o que havia a sua volta, decidiu que se sentia bem, já que nada novo surgira e tampouco trocara de lugar, pôs-se em pé novamente, apoiou uma mão na parede limenta do banheiro, conseguiu postar a outra mão sobre o registro, virou e ... nada, não saía uma mísera gota d’água, chacoalhou o chuveiro, abriu o registro ainda mais, voltou a sentar-se no vaso, se Roger G. não tivesse se isolado do mundo, saberia que exatamente naquele horário a prefeitura de Mengálvia realizava manutenção nos canos d’água da região do porto, se tivesse esperado mais meia hora poderia ter tomado seu banho, se tivesse acionado a descarga, poderia mais tarde ouvir o som da caixa se enchendo, mas ao invés disso decidiu que deveria embebedar-se mais um pouco, saiu nú do banheiro e voltou ao chão da sala, sentou-se, tomou mais um gole da vodca, olhou para o osso de galinha atirado ao chão, nem sinal das baratas, lembrou que tinha uma carteira, embora fizesse seis dias que não tocava nela, tateou em volta e se deparou com a calça social que jogara ali na noite em que fora despedido, encontrava-se no encosto do sofá, puxou a calça por uma perna, a fivela do cinto o cararranhou, de leve sem machucar, sentiu o peso da carteira no topo da cabeça, precisou de quase um minuto e meio para encontrar o bolso onde estava, e revirou pelo menos oito vezes cada bolso, até achar o correto.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
terça-feira, 7 de junho de 2011
Insânia - Parte 4
Por hora decidiu esperar, precisava ocupar seu cérebro que, devido a bebida em demasia, doía como em tempos ancestrais. A dor parecia penetrar até os ossos da caixa craniana, lembrou do jogo que passaria na TV Estatal, louvado seja Charles Johann Walcker! O governador criara a TV Estatal para que a população mais pobre tivesse acesso a divertimento. Com a totalização das TV’s pagas, a Estatal era a única rede de TV aberta, e se esforçava para ser melhor que as TV’s pagas. Transmitia agora o jogo da final estadual, o cérebro ordenou mandou sinapses aos neurônios, a essa altura danificados pela bebida, e tentou entender na sua confusão mental se o time do coração, o Nacional, vencia ou não o Foot Ball, quando conseguiu entender, deu-se conta que o Nacional perdia de dois a zero para o arqui-inimigo Foot Ball.
Olhou, um pouco sem entender, o que se passava. Dois ópios em um, televisão e futebol, uma é formadora de opiniões, o outro de lunáticos, nos tempos da televisão aberta, ela mandava no que você deveria pensar, era capaz de fazer com que se tomassem decisões baseado no que seus comentaristas diziam, atacava ou protegia governos de acordo com os seus interesses, mentia, manipulava, omitia, mostrava a verdade que lhes convinha, e nunca pedia desculpas pelos seus erros, esmiuçavam a vida de qualquer um, e quando viam a inocência da vítima, a abandonavam, sem direito de defesa, como chacais depois que se desinteressam por sua presa depois de acabar com ela, e a deixam como chacota para as sorridentes hienas! E as hienas eram piores, viviam de sobras, de verdades absolutas do que se dizia no deus de ondas analógicas! Deveria ser deus de ondas ilógicas, nunca se podia confiar na televisão, ela que deveria esclarecer de um tempo para o outro, não se sabe dizer exatamente onde, teria ficado humana demais, pois não se podia mais confiar no que ela dizia, a televisão era capaz de deixar pessoas cegas, surdas e mudas, afinal para que pensar? Ela fazia isso por você, que tem a mente fraca, totalmente manipulável, um verdadeiro tevidiota, ah que termo interessante, a televisão como agente idiotizador, era a máquina perfeita de criar imbecis! Louvado seja o Senhor Governador Charles Johann Walcker! Nos deu ao menos uma televisão um mínimo decente, tem tudo o que as outras tem, violência, esportes e pornografia, mas em horários que crianças não a vêem. Existem também os telejornais, mostram as “maravilhas” da administração, claro que não deixa de fazer rápidos registros sobre a oposição, ao menos não esmiúça a vida de inimigos, como da vez que o maior crítico do PNS, o partido do governador, foi pego extorquindo prostitutas em um motel clandestino, uma batida policial o decobriu. Comenta-se que o próprio governador interveio para que a notícia não fosse veiculada na TV Estatal, o mesmo não pode se dizer dos jornais, mas como se tratava de um figurão, a notícia não foi muito adiante, é capaz que este mesmo figurão seja eleito nas próximas eleições, as pessoas tem memória curta para a política.
Mas o mais incrível é que hoje, apesar de tudo, a TV talvez seja a única maneira de reunir uma família, é provável que esta caixinha seja uma das poucas coisas que se pode chamar de lazer coletivo, as famílias se reúnem para ver um programa que tem o intuito de transformá-la em uma alienação institucional. O que terá acontecido com as velhas mesas de jantar?com passeios? com viagens e afins? Será que é só na frente de uma televisão que marido e esposa podem ficar juntos e ter romances inverossímeis? Será que o único momento em que irmãos deixam de brigar é para assistirem os seus programas favoritos em comum? Isso caracteriza outro problema, a televisão é a babá do século vinte e um, ela repete bordões centenas de vezes, passa desenhos cada vez mais violentos, estimula a competição e explode monstros gigantes, e os ´pais se preocupam? Doce ilusão, por óbvio que não, enquanto elas estão na frente da televisão, ficam quietas, e isso para eles compensa qualquer coisa.
Hoje as atividades entre pais e filhos são resumidas a ficar frente a uma televisão vendo futebol, e este último é um outro fenomeno que ainda precisa ser explicado, se é que existe uma explicação.
Nenhum filósofo seria capaz de explicar essa paixão, essa vibração, essa entrega de um homem por uma paixão eterna, nenhum filósofo explicaria! Ah que saudades de Aristóteles, de Platão e de bons filósofos!
O futebol é uma espécie de televisão, também deixa as pessoas cegas, surdas e mudas, mas de paixão, o futebol não pensa por ninguém, pelo contrário às vezes faz com que deixemos de pensar, nos guiamos por um sentimento de devoção que acredito que nenhuma religião no mundo tenha, os islâmicos tem de ir à Meca ao menos uma vez na vida, no futebol não ir ao estádio regularmente é quase uma heresia, é algo impensável, o torcedor de verdade é fervoroso, engajado, imutável! Soa quase ridículo sofrermos por uma instituição, sim, pois os atletas jamais serão sempre os mesmos, quem paga mais compra o melhor jogador, mas não compra os melhores torcedores, isso não tem preço, é algo de nascença, Então torcemos por um símbolo, para uma ou mais cores e odiamos com todas as forças as cores do adversário, torcemos por uma história, por uma superação nossa por sobre outra paixão, algo um tanto quanto irônico, todos recorremos a Deus, quando nossos times vão mal, mas, será que o Deus do meu time é mais forte que o Deus do time adversário? É uma pergunta cretina na verdade, e a verdade é que somos influenciados desde o berço, com roupas, com bolas, camisetas e apetrechos do time do coração de nossos pais, e qual seria a pior coisa para um pai? Ver seu filho torcendo pelo outro time, é interessante, não há ainda nada que explique o que leva um cidadão comum a deixar o conforto de seu lar para gritar como um louco e incentivar onze homens usando uniformes iguais e com números diferentes, que ganham salários no mínimo cem vezes maior do que qualquer cidadão comum, e alguém acha que isso importa? Claro que não, do mais rico ao mais pobre, todos são mobilizados por este esporte, os assuntos em mesa de bar são sobre futebol, as piadas de segunda-feira são sobre futebol e as vezes mortes são em nome dos deuses da bola. Vinte e dois homens correndo atrás de uma bola e intentando chutá-la entre três traves, realmente não me entra na cabeça,
- Vamos Nacional! Merda de time!
Mais uma vez evoco o nome do Governador, nos deixa ver jogos sem precisar sair de casa, ele que com dezessete anos fez o gol que deu o título mundial de juniores para o Foot Ball, louvado seja!
Insânia - parte 3
Roger G. suspirou, coçou o tornozelo que estava envolto em uma espécie de sebo, resultado da pele morta que se acumulara devido a falta de banho e ao suor, sentiu-se contente por ter ferido a inimiga, tomou mais um gole de vinho, já não sentia o corpo unamente, parecia que seus órgãos internos estavam espalhados pela sala, os sentia frios e sujos, e o cérebro flutuava fora da caixa craniana, doendo! Voltou a ouvir barulho, achava que eram elas voltando, o barulho parou e G. exprimiu toda a sua insatisfação em relação a suas novas inquilinas. Malditas baratas!
Baratas são seres detestáveis, é provavel que detestamo-as mais ainda pois sabemos que são as últimas sobreviventes que ficariam após uma catástrofe nuclear, era ruim pensar que nós evolumanos não resistiríamos a isso enquanto que essas maledicências de multipatas sobreviveriam, no lixo em que se reproduzem é quase incrível acreditar que sejam tão resistentes, se alimentam de sobras, esgueiram-se pelas casas a noite, é repugnante pensar que elas caminham por cima de tudo e que depois nós usamos essas coisas que elas pisoteiam, sera que naftalina ainda resolve?
o que importava agora a droga da naftalina? Seus antepassados eram caçadores, e era assim que acabaria com elas, por meio de uma caçada, uma guerra de nervos, os mais fracos sucumbiriam primeiro, tinha certeza que não seria ele o primeiro. Não desta vez, sempre fora o mais fraco do grupo de escola e do de amigos, era sempre ele que cansava primeiro, era sempre ele o primeiro a ir dormir, mas as baratas não seriam páreo para ele, elas haviam ido enmora, mas ele as esperaria, sabia que era só questão de tempo até que sentissem fome e voltassem para se confrontar com ele.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Insânia - parte 2
O gosto da carne gelada bem como da gordura recendiam na sua boca, e o vinho não parecia fazer com que o gosto desaparecesse, continuava impregnado na sua cavidade bucal. Seis ou sete copos de um vinho terrível não fizeram nenhuma diferença. Paciência, desapareceria quando ele menos esperasse, com ou sem a ajuda do vinho tinto suave proveniente de um garrafão de cinco litros que ele havia guardado por ocasião de sobra das últimas festas juninas.
Coçou a barba, parecia ter se acumulado mais sujeira por de baixo das unhas, não deu importância. Veio uma flatulência bucal que lhe deixou um gosto azedo na boca e, em seguida, uma flatulência intestinal pedregosa terrível, veio junto a um mau cheiro que poderia vir do cais. Continuou ouvindo o barulho, sutil, leve, eram sem dúvida elas, vinham sorrateiras, fazia pouco mais de um dia que ele as avistara pela primeira vez, agiam como se ele não estivesse ali, agora prostrado no chão esperava pela volta delas, e os ruídos davam a impressão de que apareceriam a qualquer momento. Esperou paciente por duas horas, enquanto divagava sobre a sua condição, jovem ainda, era verdade, interessante quando limpo encontrava-se e por algum motivo que não conseguia entender, misturava o rosto da namorada com o de outras mulheres, estranhava não sentir sua falta, haviam conversado por telefone há quatro dias, um pouco antes da bateria do seu celular ter acabado, e ele não sentia a mínima vontade de colocar o carregador na tomada para poder usá-lo novamente. Um dos principais motivos de sua desgraça foi ter se envolvido em uma história não bem esclarecida entre quatro funcionários, um pequeno desvio de verbas que não deu certo porque fora descoberto por superiores, assim veio a sua demissão e o naufrágio de suas idéias e planos em curto prazo, após esse incidente sentiu-se como um trapo, e decidiu que viveria assim, até recuperar-se do baque, o que não vinha acontecendo, lembrou que teria uma ficha suja a partir de agora e conseguir emprego seria um tanto difícil, ao menos em Mengálvia, talvez mudasse de cidade, ou, quem sabe, voltaria para o interior, ainda com a vergonha estampada no rosto, e enfrentaria seus pais e todos os sermões sobre ética e moral, sobre uma conduta limpa, sobre a honestidade! Quanto mais pensava nisso menos vontade tinha de voltar para o interior do estado. E se mudasse de estado? Sim, poderia ir para outro estado e tentar recomeçar a vida, porque não? porque não tinha dinheiro, por que mais seria? Roger, Roger o que diabos fizeste de sua vida?
Os ruídos de novo, só podiam ser elas, não tinha mais dúvidas, desgraçadas vinham sem ninguém convidar, penetras de uma figa, malditas, vivem do resto dos outros, do que a sociedade não quer mais, parasitas da podridão, odiosas, não suportava a presença delas, nojentas. Segurou o osso com mais força, colocou a língua para fora, cerrou o olho direito e fez mira, assim que viu a primeira perna, concentrou a força no braço direito, quando viu as três entrarem juntas, focalizou o que poderia se chamar de centro crítico do terceto e atirou o osso de galinha com toda a força, conseguiu arrancar uma perna, da que se encontrava mais a direita, o que não a impediu de correr junto com as outras para algum outro canto da sala, Roger G. não levantou-se para pegar o osso que havia jogado, melhor que ficasse por lá, seria um atrativo para que elas voltassem mais tarde, e ai tentaria com um osso maior, tentaria desta vez o óbito, não apenas arrancar uma perna, queria ao menos esmagar uma delas.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Insânia
Caros, Insânia foi escrito em uma semana e meia, foi um transe de criatividade que tive, é um livre que reúne todas as minhas influências, o realismo fantástico de Gabbo, o absurdo de Kafka, as tristezas de Heminghway, a busca da humanidade de Dostoiévski e a junção de palavras de Joyce.
Não me atreveria a tentar achar uma definição para o livro, nem mesmo um estilo, ele foi fruto da minha experiência (ou a falta de ) na política, no trato com seres humanos e em algumas teorias que eu defendo, pois eu mesmo criei.
Espero que gostem deste romance, ensaio, crônica ou sei lá o que, como falei, não arriscarei em definir.
INSÂNIA
Não me atreveria a tentar achar uma definição para o livro, nem mesmo um estilo, ele foi fruto da minha experiência (ou a falta de ) na política, no trato com seres humanos e em algumas teorias que eu defendo, pois eu mesmo criei.
Espero que gostem deste romance, ensaio, crônica ou sei lá o que, como falei, não arriscarei em definir.
INSÂNIA
Após seis dias sem comer Roger G. começou a sofrer e a sentir os efeitos da fome. A barba de seis dias coçava-lhe o rosto, suas unhas haviam crescido e uma sujeira se encruava por de baixo delas. A pele criara uma oleosidade que o calor de vinte e oito graus ajudava a agravar, tinha agora um aspecto de papel prateado, reluzente.
Trajava apenas cuecas, já amareladas devido ao suor que havia se impregnado na costura virilhal, suas axilas exalavam algum odor quase indefinido, acro, repugnante, como queijo podre. Ele agora aguardava, os ossos estavam ao seu alcance, assim que elas aparecessem G. os atiraria nelas. Olhando agora para os ossos com alguns fiapos de carne e saliva ele conseguiu lembrar do gosto estranho que provara, quanto tempo estariam guardados na geladeira? Desde a última visita da mãe há dez dias? Roger G. não saberia precisar, era a única coisa que havia na geladeira, e o aspecto da carne, assim como o dele não era nada saudável.
A penumbra da tarde não entrava pelas parcas frestas inexistentes da cortina da janela, no seu apartamento hermético, no térreo, em uma área nem tão nobre de Mengálvia, na verdade a área pobre da cidade, perto do porto! Era possível acordar ali com o apito de navios e com cheiros que faria as pessoas de estômago mais frágil vomitarem. Era uma quarta-feira, belo dia para reagir! Pensou Roger, ninguém sai de casa numa quarta, ninguém bebe em bares numa quarta-feira, ninguém tem saco para ninguém numa quarta-feira. É o meio da semana que separa a droga da segunda e a subseqüêncial terça da alegria disfarçada da quinta e da euforia secreta da sexta e, posterior, o fim de semana celebrado como a libertação da rotina, seja ela qual for. É nos finais de semana que as pessoas são o que realmente são, de veados a putas, todos se tornam o que sempre foram, num fim de semana.
Ouviu agora um discreto barulho, eram elas? Empunhou um pequeno osso de galinha que já estava ao seu lado por algumas horas, a experiência de comer sobras não foi tão aterradora quanto ele pensou, seis dias são suficientes para derrubar velhos tabus, assim sendo o frango veio em boa hora, achava ter mais coisas de reserva, mas tinha somente bebidas em grande quantidade, colecionava-las em escala, bebia uma garrafa de qualquer coisa por dia em sua nova situação levantava-se apenas para as necessidades fisiológicas, e, ainda assim, quando estas eram iminentes.
Tempo - Parte final
E Pôs-se a escrever um ofício dirigido a câmara dos vereadores para que votassem com regime de urgência a lei que igualava o tempo de Mengalvia ao resto do Mundo. Em caráter obrigatório mandou que a lei valesse no exato momento em que fosse aprovada. Achou que seria fácil, mas ainda demorariam oito semanas para que se aprovassem tudo, pois queriam ter a certeza de que receberiam o dinheiro correspondente aos cinco anos que seriam pulados no calendário. Depois de muita conversa, brigas de interesses e uma rodada para ver quem imaginava a coisa mais absurda com a água, foi reunida toda a população, na parte seca da cidade, foi feito um palco descomunal, houve jantares nababescos, pois alguns se deram conta de que poderiam morrer nesta passagem de tempo, e queriam despedir-se de todos os seus amigos, os espanhóis reivindicaram que queriam o seu rio artificial pronto, o Nacional reclamava que não poderia ter a revanche contra o Foot Ball, no que estes responderam que não se preocupassem pois nem em cinquenta anos conseguiriam ganhar deles, e erraram por apenas um ano. Quando a totalidade da população fez-se presente, o prefeito solenemente tomou a caneta entre os dedos, pairou-a no ar, e com ar nostálgico falou:
- Damas e Cavalheiros, nos vemos em cinco anos!
Depois que terminou de assinar, por um milésimo de segundo tudo ficou vazio.
* * *
No milésimo seguinte as coisas deram um salto temporal de cinco anos, e apareceram crianças que outrora haviam desaparecido, casais que nunca se haviam visto antes acordavam na mesma cama, filhos sumiam, mães em desespero faziam seus enterros simbólicos, e tempos depois chegavam cartas dizendo que por algum motivo foram parar na Europa para estudar, fortunas enterradas descobriam-se gastas por desespero, roupas novas estavam velhas e cheias de traça, velhos conhecidos se viam separados por alguma birra que não lembravam , centenas de bebês apareceram em casais que mal haviam começado a namorar, e outros tantos casais apaixonados descobriam-se com novos pares, casas novas viam-se em lugares onde antes só existia mato, novas lojas traziam a moda atual da Europa, o comércio quadruplicara, uma legião de gente desconhecida apareceu na cidade de um segundo para o outro, quando alguém teve a idéia de ver os jornais muita coisa se explicou, viu-se os registros jornalísticos e se descobriu que o Nacional havia perdido todos os últimos vinte jogos, que o Foot Ball, havia estado no país vizinho e vencido a seleção deles.
Os Espanhóis se viram a doze metros de concluir o seu rio, o que encheu de raiva o conselheiro da aldeia, pegou sua pá, atirou-a com toda a força no chão.
- Porra, não se pode mesmo confiar em políticos!
Apenas uma coisa não mudou, a chuva que caia ininterrupta, mas já poucos se lembravam da brincadeira de materializar pensamentos, e quando os mais antigos diziam isso, eram internados no novo hospício que acabara de surgir perto da estação de trem que nunca tinha existido antes.
Magalhães, despertou-se ao lado de uma mulher que parecia prometer beleza em seus traços de outrora, viu-se gordo ao extremo, com olheiras, careca no topo da cabeça, grisalho e assaltado pela bebida, olhou a janela e a chuva continuava, e só ai se deu conta, levantou-se descobriu que gastara seu dinheiro em farras e mulheres, bebidas e jogos, foi falar ao prefeito e descobriu este moribundo em sua cama, com a pata santa deformada pelo reumatismo, com algumas penas que ameaçavam nascer nos braços, a boca bicuda e uma voz gutural e lamuriosa.
- E esta chuva que não passa Magalhães!
Como falei, achava eu que escrevia bem, mas se gostaram talvez eu disponibilize Insânia para que vocês leiam, foi o meu seundo romance!
Um abraço e obrigado pela audiência
Tempo - Parte IV
Foi assim que se deu a moda de imaginarem as mais absurdas coisas para que tomassem forma, e cada um imaginou seres deslumbrantes, máquinas voadoras que o Senhor Magalhães tratava de copiar em papel que logo se desfazia devido a umidade, foram descobertas fortunas em famílias que se faziam de pobres, amantes em mulheres casadas, desejos reprimidos e guardados no foro mais intimo, pactos com o demônio, pervertidos sexuais, concubinas virgens e um diabo que deve ter sido imaginado demais, ganhou vida própria e saiu caminhando em direção ao rio, falando com voz diluída que moraria lá sem incomodar ninguém. Até que aconteceu o que o prefeito temia, perto da casa de uma das Senhoras da sociedade, tomou forma o corpo do prefeito nu, e descobriu-se que além dos pés de pato, o prefeito possuía uma penugem na virilha, e logo foi alvo de chacota, a cidade subdividiu-se naqueles que achavam que aquilo era uma imaginação encomendada e outros que realmente achavam que o prefeito virava ave aquática. E não faltaram oportunistas e inimigos que pagavam as pessoas para que imaginasse Facundo Mengalv Sobrinho Segundo com as partes anatômicas mais absurdas possíveis, quando se chegou a conversa ao extremo leste da cidade em forma de “U”, local habitado por espanhóis, Nicanor Luciz, o conselheiro do vilarejo argumentou:
- Mande-os para cá, assim não temos que cavar um rio como idiotas!
Era fato que fazia quase três meses que cavavam em meio ao pó do meio dia, ao desespero da uma, a angustia das duas, suavam no desespero das três, desidratavam ao alarde das quatro, choravam para beber suas lágrimas as cinco, desiludiam-se as seis, abandonavam tudo as sete e voltavam a fazer planos para o dia seguinte as oito, com essa lamurienta vida já haviam cavado quase dois quilômetros, só paravam a noite, para que os filhos, Jacinto, o autor inconsciente da chuva, e Juanito o gigante de coração mole, pudessem treinar junto com o time do Foot Ball. E, claro, para beberem no bar e refazerem-se do seu dia de Sofrimento.
A teimosia estava no sangue dos Espanhóis, a esperança, nos rostos dos italianos e o conformismo, no semblante dos noruegueses.
E a raiva em cada fibra do ser de Facundo Mengalv Sobrinho Segundo, bufava, passava o dia a remoer raivas, aumentou o preço para que pudessem idolatrar o seu pé direito, e muitos o consideravam ainda mais santo pois podia ter várias formas, como os santos, já outros defendiam que o demônio também tinha várias formas, o fato era que, ele, sendo homem ou o que quer que fosse naquele momento, já não agüentava mais a falação em torno da sua pessoa, irritado e aos berros mandou mandar chamar Magalhães:
- Sabe por que merda o seu maldito invento não sumiu? – Ante o silêncio de Magalhães respondeu:
- Porque finalmente não temos mais cinco anos de atraso, está na hora de ajeitar toda esta porra!
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